O que eu penso sobre o atual movimento LGBTQIA+

Quando iniciei este blog, destaquei, na apresentação, o fato de eu estar dentro da sigla LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queers, intersexuais, assexuais e outros). Não que isso fosse de fato importante, mas acho que é uma forma de atrair a atenção de um grupo de pessoas com algumas características em comum. Não faço da minha sexualidade um estilo de vida ou algo político. Quero apenas viver minha vida, sem incomodar nem ser incomodado.

Minha relação com a militância (e, a partir de agora, sempre que mencionar “militância”, refiro-me à LGBT+) foi de proximidade e afastamento. Quando me descobri como bissexual, eu estava interessado em participar de encontros voltados a jovens LGBTQIA+. Existia um grupo em minha cidade em que fazíamos piquenique e esportes ao ar livre. E era fantástico estar perto de pessoas de mesma idade que passavam pelas mesmas descobertas que eu. Foi um momento de crescimento e identificação. Mas, com o passar dos anos, afastei-me da militância (principalmente da virtual), pois esses espaços começaram a ficar cada vez mais tóxicos.

Não tenho dúvidas que as minorias sexuais sofreram, ao longo dos séculos, as mais flagrantes formas de discriminação, assédio, perseguição e violência. Tiraram a humanidade dessas pessoas e, muitas vezes, eram tratadas pior que animais. Quando eram mortos, sequer eram dignos de luto. Traziam a vergonha para a família e a comunidade. A atribuição de direitos e o reconhecimento social, por consequência, trouxeram um pouco de humanidade a elas.

Mas a postura de alguns ativistas tende a ficar intransigente. Grandes conquistas vieram pela militância: casamento igualitário, retirada da homossexualidade e da transexualidade do catálogo de doenças, mudança de nome social etc. Reconheço que esses direitos podem ser revogados por parte dos políticos mais reacionários, mas já é um passo tê-los. A militância atual age como se estivéssemos na pior fase da luta LGBT+; não reconhecem as conquistas.

Sobre a militância, quero destacar duas coisas que me incomodam: a interseccionalidade e o conceito de lugar de fala.

A interseccionalidade pode ser entendida como uma abordagem que enfatiza que o gênero, a etnia, a classe, a religião, a idade ou a orientação sexual (assim como outras categorias) estão inter-relacionados. Trata-se de um uma sobreposição ou intersecção de identidades sociais e seus respectivos sistemas de opressão, dominação ou discriminação. Cria-se, assim, um sistema de opressão que reflete a intersecção de múltiplas formas de discriminação.

A interseccionalidade pode ter pontos interessantes, mas, na prática, é algo que sai do controle. Cria-se uma “olimpíada de opressões” em que as pessoas se concentram mais em suas características do que qualquer coisa. Fica uma obsessão por cor, etnia, sexualidade, gênero e tantas coisas que, em minha opinião, não deveriam significar muito. Há gente que especula até sexualidade de crianças e adolescentes, o que é um absurdo (não posso falar por todos, mas eu fiquei até o início da adolescência sem manifestar algum tipo de atração sexual e/ou romântica). E, ainda, a interseccionalidade se concentra excessivamente nas identidades grupais, o que muitas vezes leva o observador a ignorar o fato de que pessoas são indivíduos, e não apenas membros de um grupo. Isso leva a uma análise simplista e imprecisa das pessoas e da realidade.

Já o conceito de lugar de fala não se refere apenas ao lugar geográfico, mas também simbólico. Seria uma tentativa de dar voz a pessoas que antes não eram ouvidas, e não apenas aos grupos privilegiados, como o chamado “homem branco heterossexual cisgênero cristão.” (ad infinitum

Entendo que é importante conhecer outras perspectivas e a internet facilitou muito. No passado, quando queríamos conhecer sobre algum agrupamento indígena, por exemplo, quase sempre recorríamos a um antropólogo ou outro tipo de acadêmico. Hoje, posso aprender sobre o quotidiano e os problemas que afetam os indígenas a partir da perspectiva deles. E isso é positivo. Mas, na prática, o lugar de fala tem sido usado para silenciar vozes discordantes e legitimar uma espécie de argumentação ad hominem. Há pessoas que fazem parte de minorias sociais (negros, LGBTs, mulheres) que afirmam não ter sofrido qualquer tipo de silenciamento, preconceito ou marginalização. E como fica a perspectiva dessas pessoas (seu lugar de fala)? Não acho que uma pessoa seja plena a ponto de que não possa aprender algo novo e nem que uma pessoa seja incompleta a ponto de não ser capaz de ensinar alguma coisa. Uma visão externa, muitas vezes, pode contribuir para a discussão.

Embora não tenha destacado, mas também fico incomodado com a vaidade dos militantes (principalmente dos "militantes de sofá"). As lutas devem ser funcionais. Muitos militantes partem com desdém, ironia e mesmo provocação (quando resolvem criar atrito com as pessoas religiosas conservadoras). Isso não cria um bom espaço para o diálogo e respeito.

Homem hétero não pode opinar”, “branco tem que ficar calado”... Assuntos complexos, na internet, são tratados de forma simplista, como se tudo fosse resumido a memes e lacração. Quem aprende desse jeito? Agindo de forma autoritária ou irônica, acabamos por afastar pessoas que não entendem e até poderiam estar dispostas a aprender. Não creio que os outros devam ser “desconstruídos” a ponto de que querer fazer sexo ou dar afeto a grupos que eles não sintam atração (seja por qual motivo for). Eu não militaria para isso. O movimento LGBT+ perdeu sua vocação libertária, que era a de liberdade sexual, o direito de serem reconhecidos como cidadãos perante o Estado e a sociedade e de serem deixados em paz. Eu não quero igrejas a celebrar casamentos homoafetivos (a menos que determinada comunidade religiosa os faça, por vontade própria). Se uma algum cristão conservador entende que o casamento é apenas entre um homem e uma mulher, mas tal indivíduo respeita os homossexuais e não é contra seus direitos civis (a incluir o casamento civil), por que criar atrito?

Acredito que a militância também precisa de uma autocrítica. Refletir sobre suas práticas adotadas, escutar e também aprender. Não sou anti-militância, nem a desmereço; sou grato a todos que vieram antes de mim e lutaram para um tratamento digno para pessoas LGBTs. Apenas quero uma militância funcional.

Nenhum comentário:

Postar um comentário